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Determinação do sexo em tartarugas marinhas: ameaças ao equilíbrio das populações

Nos humanos a determinação do sexo ocorre através do sistema de determinação cromossômica no qual fêmeas tem um par de cromossomos XX e machos tem um par XY. Porém há outras formas de determinação do sexo nos animais. Em 1966, foi descoberto que em animais como tartarugas, crocodilos e tuataras , a determinação do sexo depende da temperatura de incubação dos ovos nos ninhos (Charnier, 1966).

Existe uma determinada faixa de temperatura no ambiente dos ninhos que produz apenas machos e outra que, por sua vez, produz exclusivamente fêmeas. Há também um intervalo de transição onde são gerados embriões de ambos os sexos. Desta forma em um mesmo ninho e em uma mesma ninhada pode ocorrer o nascimento tanto de machos quanto de fêmeas (Hamann et al., 2003). No primeiro terço do período de incubação dos ovos há influencia da temperatura na determinação sexual, porém somente no segundo terço da incubação, a determinação sexual é irreversível (Bull & Vogt, 1981). Neste estágio, a temperatura atua na síntese de enzimas envolvidas na diferenciação das gônadas (Pieau, 1996).


Embriões tratados experimentalmente com estrógeno geram fêmeas em temperaturas apropriadas ao desenvolvimento de machos e machos se desenvolvem quando a síntese de estrógeno é bloqueada em uma temperatura que tipicamente produz fêmeas (Wibbels et al., 1994; Pieau, 1996). Entretanto, como é a temperatura de incubação que regula a produção de estrógeno, deduz-se que no ambiente natural a temperatura da incubação é o elemento básico da determinação sexual (Wibbelset al., 1994).
A localização dos ninhos de tartarugas marinhas em diferentes locais como zonas próximas ou afastadas da maré, entremeadas ou não de vegetação ou em áreas com processo de erosão eólica fazem com que em cada um destes ambientes tenha uma variação de temperatura característica. Assim, a temperatura dos microambientes de desovas associada também a ação climática influenciam a proporção de machos e fêmeas entre ninhadas.

A influência das ações humanas também contribui para o desequilíbrio entre o número de nascimentos de machos e fêmeas nas populações de tartarugas marinhas. A degradação dos ambientes litorâneos diminui a disponibilidade de áreas adequadas para a construção do ninho e/ou alteram as temperaturas dos ambientes onde as fêmeas constroem os ninhos. O problema é que este desequilíbrio reduz as chances de que indivíduos de um determinado sexo encontre parceiros sexuais, o que culmina com a redução de indivíduos nas populações. Neste caso para que uma população de tartaruga não se extingua pode ser necessário a execução de ações de manejo.
Sabemos que poucos filhotes de uma ninhada de mil conseguem sobreviver e chegar à maturidade sexual devido à alta sensibilidade desses animais aos fatores naturais. Atualmente esta mortalidade juvenil é potencializada por ações humanas que não seguem planejamentos adequados (por vezes são até mesmo ilegais) e tornam-se prejudiciais para as populações destes animais.

Por: Gabriela Cavalcante de Melo, membro do Nurof-UFC.

REFERÊNCIAS:

Bull, J.J.; Vogt, R.C. 1981. Temperature-sensitive periods of sex determination in Emydid turtles. J. Exp. Zool., 218: 435-440.

Charnier, M. 1966. Action de la temperature sur la sex-ratio chez l’embryon d’Agamma agama (Agamidae, Lacertilien). Soc. Biol. Ouest Afric., 160: 620-622.

Hamann M, Limpus CJ, Owens DW. Reproductive cycles of males and females. In: Lutz PL, Musick JA, Wyneken, J. (Ed.). The Biology of sea turtle II. Boca Raton, FL:CRC Press, 2003. p.135-161.

Pieau, C. 1996. Temperature variation and sex determination in reptiles. BioEssays, 18(1): 19-26.

Wibbels, T.; Bull, J.J.; Crews, D. 1994. Temperature-dependent sex determination: a mechanistic approach. J. Exp. Zool., 270(1): 71-78.

 

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